Dicas
A distorção na porcentagem sexual nas ninhadas
de Bettas
Todos aqueles que criam rotineiramente bettas eventualmente encontram
uma ninhada que produz mais machos que fêmeas e vice-versa. Se fizermos
uma lista com as explicações dos criadores encontraremos um monte
de fatores: pH muito alto, pH muito baixo, a idade em que os peixes
foram jarreados, a fase da lua, a temperatura da água, o preço da
cerveja, e por aí vai. O que é imediatamente evidente, no entanto,
é que a porcentagem entre os sexos pode variar de 100% fêmeas a
100% machos; o sexo é inquestionavelmente maleável.
Respostas a estas perguntas algumas vezes devem ser examinadas
de uma maneira diferente. Perguntemos em primeiro lugar porque esperamos
que a porcentagem entre os sexos seja de 1:1. Embora sejamos condicionados
a acreditar que isto é "normal" em virtude da porcentagem sexual
em humanos, nós somos familiarizados com insetos sociais como formigas
e cupins que apresentam uma grande diferença entre esta porcentagem.
Porque então devemos ter uma porcentagem entre os sexos de 1:1?
Se conseguirmos responder esta questão, talvez possamos configurar
quais os mecanismos que fazem com a que a porcentagem de 1:1 seja
violada.
Imagine uma população de animais que tenha um igual número de machos
e fêmeas. Nós exploraremos o fato de que mutações distorcem esta
porcentagem de 1:1. Mutações deste tipo acontecem toda hora. Um
clássico caso foi o responsável pela devastação do milho em 1970.
Uma linhagem mutante tinha as plantas machos estéreis. Este cultivar
tinha a notável característica de facilidade de manejo e foi plantado
intensamente. Inafortunadamente, este cultivar de plantas machos
estéreis também tinha a propensão à suscetibilidade a fungos e a
maior parte da colheita de 1970 foi perdida. Mutações que alteram
a porcentagem sexual, assim como mutações que as restabelecem são
bem conhecidas.
Agora imaginemos o fato de que aconteça uma mutação natural que
produza um excesso de machos. A mutação produzirá mais machos que
fêmeas. Alguns machos inevitavelmente não cruzarão com fêmeas. Assim
sendo, nem todos os peixes mutantes conseguiram se reproduzir e
essa mutação estará em desvantagem em relação àquela que produz
casais em igual número. Cruzamentos que produzam mais machos terão
menos descendentes que cruzamentos que produzam a proporção de um
macho para cada fêmea. O argumento tem dois lados. Se a mutação
produz um excesso de fêmeas, então algumas delas não procriarão
e esta mutação perderá para aquela que produz a porcentagem de 1:1.
Agora que nos temos à resposta para a pergunta não respondida,
nós podemos retornar a questão que realmente queremos responder.
A chave vem de olhar atentamente o argumento para porcentagens 1:1.
Ao formular esta pergunta, eu respondo a você que imagine uma população
com igual número de machos e fêmeas. O que acontece se alterarmos
esta proporção? O que acontece se houver uma deficiência de machos,
uma condição, por exemplo, que aconteceu no fim da segunda guerra
mundial? Se esta guerra tivesse tornado uma geração humana, com
uma deficiência de homens crônica, então as mulheres que produzissem
mais homens estariam em vantagem em relação a uma mulher que produzisse
mais mulheres. Esta vantagem, no entanto, seria temporária. Ao término
da Guerra, a população retornaria normalmente ao normal e o excesso
da produção de homens voltaria a não ser vantajoso.
Quando a proporção entre os sexos está diferente de 1:1 existe
uma vantagem real de produzir um excesso de determinado sexo, sendo
que esta vantagem será eventualmente eliminada com o tempo. Existe
alguma maneira que um animal pode agarrar esta vantagem no jogo
da sobrevivência? Sim, mas somente se o organismo puder de algum
modo avaliar se a relação entre os sexos, em sua vizinhança, estiver
desbalanceada e alterar esta relação com segurança. Imagine que
um Betta, ou qualquer outro animal seja capaz de detectar que existem
muitos machos e produza um excesso de fêmeas (ou vice versa) em
resposta. Um organismo assim seria muito melhor que um organismo
que produza apenas a porcentagem 1:1.
O problema aqui, com certeza, é que o organismo tem que ser apto
para saber com alguma precisão a porcentagem entre cada sexo em
seu lago, charco ou alagado. Os Bettas, presumivelmente, não podem
fazer a mais simples das aritméticas, então como eles podem calcular
a porcentagem entre os sexos em sua região? Isto acaba sendo um
grande problema. Nós esperamos que os machos sempre olhem para as
fêmeas maiores e as fêmeas olhem para os machos mais fortes, pela
razão óbvia que fêmeas grandes produzem mais ovos e machos mais
fortes defendem melhor seus ninhos.
Se uma fêmea de Betta encontra apenas machos pequenos em seu ambiente,
ela pode “sentir” que a população de machos está deficitária. Se
cruzar com um destes machinhos, ela produzirá um excesso de machos,
tenho uma descendência maior que se produzisse uma ninhada de 1:1.
Similarmente, se uma pequena fêmea encontra-se sendo cortejada pelos
mais fortes e robustos machos, ela pode da mesma maneira “sentir”
uma deficiência de fêmeas no ambiente e correspondentemente produzir
uma freqüência maior de fêmeas em sua ninhada.
Se os Bettas tem a capacidade biológica de ajustar a porcentagem
entre os sexos em suas ninhadas, então necessitamos apenas mexer
com o tamanho de nossos reprodutores para manipular o resultado
de nossas ninhadas. Será isso mesmo que acontece? Para poder responder
questões como esta, precisamos apenas fazer as experiências em que
as hipóteses seriam: pequenos machos + grandes fêmeas dão um excesso
de machos; pequenas fêmeas com grandes machos dão um excesso de
fêmeas, e um casal equivalente daria uma porcentagem de 1:1. Necessitamos
apenas de umas dez ninhadas grandes (com mais de 100 filhotes) resultantes
de cruzamentos de peixes com tamanho significantemente diferente
e outras de peixes de tamanho semelhante, de preferência usando
animais de uma única linhagem (preferivelmente imbreeding). Isto
nos custaria uns 50 tanques e algumas centenas de beteiras!
Antes de embarcar neste projeto, no entanto, é sempre prudente
rever a literatura científica existente sobre o assunto. Até recentemente
isto seria uma dor de cabeça, requerendo horas e horas de pesquisa
em alguma biblioteca universitária, apenas para ter-se uma idéia
sobre o assunto. O IBC, no entanto, simplificou bastante a matéria.
Uma bibliografia parcial sobre o gênero Betta pode ser baixada no
website
do IBC.
Uma pesquisa desta literatura revela – e isso acontece freqüentemente
em artigos científicos sobre matérias do interesse de hobistas –
que a questão já foi perguntada e respondida pelo Dr. Gene Lucas.
Como parte de sua tese de doutorado na Iowa State University, Gene
fez um grande número de cruzamentos e manteve anotações cuidadosas
sobre o tamanho dos reprodutores e a porcentagem sexual dos filhotes
nas ninhadas. O trabalho do Dr Gene está disponível para aqueles
que lêem seus artigos na coluna sobre Bettas da revista FAMA. Muitos
que lêem estes artigos não têm noção do tamanho do trabalho do Dr.
Gene, especialmente em virtude do fato que uma fração significante
de seus escritos foram feitos antes da coluna existir na revista.
O site do IBC possui uma bibliografia da contribuição do Dr. Lucas
para a revista FAMA desde janeiro de 1978 até 2001, que pode ser
baixada no endereço acima.
A resposta para a nossa questão é encontrada na coluna sobre Bettas
da revista FAMA de Fevereiro de 1979. Gene diz que, "Jovens machos
cruzados com fêmeas velhas dão uma porcentagem entre sexos na ninhada
de 34:2 para os machos. Os machos mais velhos cruzados com fêmeas
jovens dão uma porcentagem de 5:12" O resultado de Gene, interessantemente,
é precisamente o que poderíamos esperar se realmente houvesse uma
adaptação dos Bettas ao tamanho dos reprodutores modificando a porcentagem
sexual de suas ninhadas.
Embora os dados do Dr. Lucas possam confirmar o que a teoria evolucionária
prediz, o fato não exclui que outros fatores possam influenciar
a porcentagem sexual das nossas ninhadas. Apesar disso estes dados
são importantes e devem ser levados em conta por criadores comerciais
ou amadores. Se você é um criador comercial, pode esperar uma freqüência
maior de machos cruzando jovens machos com fêmeas mais velhas. E
hobistas, se estão tentando continuar a desenvolver e manter uma
linhagem, têm que ser cuidadosos com cruzamentos entre pais e filhas,
pois gerarão poucos machos. Cruzamentos de mães com filhos ao contrário,
gerarão poucas fêmeas. Os primeiros princípios evolucionários sugerem
que os criadores devem fazer ambos os cruzamentos ou cruzar irmão
com irmã para poder assegurar ter um número generoso de ambos os
sexos para escolher como reprodutores da próxima geração.
Fonte: http://www.famamagazine.com/
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Atualização: 02.10.08 11:39
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